Para que não digam que nesta rubrica só se fala de cascas, desta vez trago-vos um pouco de História. Uma daquelas curiosidades que vos pode ajudar a fazer um vistão quando organizarem um jantar de amigos. Debrucemo-nos, então, sobre os sefarditas (que recentemente ganharam maior visibilidade e não pelos melhores motivos – contas de outro rosário).
Esta comunidade judaica tem a sua origem na Península Ibérica, território onde se estabeleceram na época do Império Romano, contribuindo significativamente para a vida económica, social e intelectual, ao desempenharem funções como médicos, cientistas, filósofos e comerciantes.



A Idade Média revelou-se um período de grande prosperidade, especialmente durante a era de convivência entre cristãos, muçulmanos e judeus, quando as três religiões coexistiram em relativa paz. No entanto, a situação dos judeus sefarditas começou a deteriorar-se a partir do século XV, com D. Manuel I a ceder a pressões dos Reis Católicos. Aumentaram as tensões religiosas e a perseguição. Os que não se converteram ao cristianismo (prática que originou o conceito de ‘cristãos-novos’) acabaram expulsos, exilando-se em diversas regiões do velho continente.
A gastronomia sefardita é, portanto, uma herança viva que transcende a mera alimentação, carregando consigo as tradições judaicas, costumes e experiências. Um aspecto fascinante é a capacidade de adaptar as suas receitas originais às condições locais, incorporando ingredientes regionais e técnicas novas, numa fusão de sabores entre o Mediterrâneo, África do Norte, Médio Oriente e Balcãs.
E é no receituário sefardita que encontramos as kaşkarikas, um prato feito a partir de cascas de courgette. Eis um traço marcante desta tradição culinária: o aproveitamento total dos ingredientes, essencial em comunidades exiladas, muitas vezes expostas a restrições económicas e a escassez de recursos.



As cascas são cuidadosamente cozidas e temperadas, tornando-se num acompanhamento ou petisco crocante, que preserva a textura e o sabor terroso da courgette. Dependendo da região, as kaşkarikas podem apresentar pequenas variações. Por exemplo, em algumas partes da Turquia, onde existe uma comunidade sefardita significativa, o prato pode ser enriquecido com outros vegetais, como tomates e pimentos. Já na Grécia é comum adicionar queijo e ervas como o endro para dar um toque mediterrânico.
Receitas como esta são uma ponte entre o passado e o presente, lembrando-nos de que já os nossos antepassados compreendiam a importância de respeitar os ciclos da natureza e de não desperdiçar o que a terra nos oferece.









